Seja você mesmo

Quando reconhecemos o valor de quem somos e não nos importamos com o que vão pensar sobre nós, caminhamos para viver de forma mais autêntica, livre e feliz

Gosto de observar como as crianças pequenininhas são plenas dentro delas mesmas. Se permitem dar birras, são sinceras, naturais, sabem o que não gostam. Elas chegam por aqui ainda libertas de um olhar julgador que nós, adultos, já interiorizamos. Esses julgamentos (nossos e dos outros) que vamos carregando ao longo da vida vão fazendo com que a gente se enxergue de um jeito meio distorcido. Por isso, o meu convite com essas palavras que seguem é para que possamos investigar o que é que nos distancia de quem a gente é. E, mais do do que isso, como é possível ver o valor em ser quem somos, reconhecendo nossas vontades e expressando isso de um jeito livre, alegre e pleno.

A farsa da inadequação
Li um livro que me ajudou muito a encontrar respostas: A Vida Ama Você (Sextante), de Robert Holden e Louise Hay.  Os autores falam, inclusive, sobre essa essência pura da infância, que perdemos aos poucos. “Os bebês são pura consciência, não há noção do Eu. Não têm autoimagem nem construíram uma persona ou uma máscara. Ainda não têm neuroses e estão plenos da bênção original do espírito. Eles se identificam apenas com a sua face original, como os budistas chamam — a face da alma”, escreve Robert. A questão é que, ao longo da nossa jornada, muitos julgamentos e críticas começam a nos impedir de ver essa nossa face original. Aos poucos, o amor vai sendo substituído por um sentimento de separação, de inadequação, de medo de não agradar.

Mas essa beleza de ser quem somos ainda está em nós, mesmo que escondida. “Podemos vê-la novamente no momento em que paramos de nos julgar, mas essas críticas agora são um hábito com o qual nos identificamos. Nós nos convencemos de que julgar equivale a enxergar, mas na verdade é o oposto. Você só passa a enxergar de verdade quando para de julgar”, escrevem.

E aí, nosso valor vai sendo colocado em xeque e surge aquele sentimento que a gente tanto conhece: nunca ser bom o bastante. Bonito o bastante, inteligente o bastante, criativo o bastante… Nunca somos bons o suficiente, o que é uma grande mentira, mas a gente não sabe. E expor quem a gente é parece não ser algo muito seguro ou promissor, seja pelo nosso cabelo, corpo, ideias, jeito de estar no mundo.

Vamos criando máscaras para agradar, forjamos um jeito de ser e não acreditamos que a nossa essência é segura de ser verdadeiramente amada. O curioso é que agimos assim muitas vezes sem nem ter consciência disso. “Esse medo essencial — ‘eu não mereço ser amado’ — não passa de uma história que só parece real porque nos identificamos com ela. Isso nos impede de gostar da nossa própria companhia e nos afasta de nós mesmos”, escrevem Robert e Louise.

O medo de não ser bom
o bastante esconde um receio
inconsciente de não merecer
ser amado. Isso nos impede de gostar
da nossa própria companhia
e nos afasta de nós mesmos

O que os autores me dizem através dessas palavras é que o mundo é muito mais o que nós enxergamos dele. As coisas não são como são, mas como nós somos, como nos identificamos. O problema disso é que nossas percepções podem fazer da vida e dos relacionamentos algo difícil de desfrutar com plenitude. E aí a vida fica limitada.

Mas é possível criarmos outra realidade para estarmos. Procurei a terapeuta e instrutora de thetahealing — uma terapia de cura energética através do acesso às ondas theta — Sandra Chander. O que ela diz faz muito sentido. “Todos temos crenças, que é tudo aquilo que tomamos como verdade em algum momento. Algo que não questionamos, não temos plena consciência. E esse nosso sistema de crenças são os óculos com os quais vemos o mundo”, diz.

Assim, se acreditamos que sermos nós mesmos é algo perigoso, que não vale a pena, ou que pode não ser bem aceito, passamos a viver de um modo limitado. Por isso, trazer para a consciência essas ideias que tomamos como verdade e permitir que elas vão embora é um caminho para nos aproximarmos de nós mesmos. “Sem perceber, uma pessoa pode acreditar que, se for diferente, vai ser excluída, que ser diferente é ruim. Outras podem acreditar que se forem elas mesmas não terão o amor de ninguém. Também há quem busque um padrão externo e impossível de perfeição, querendo ser quem não é, acreditando que, só assim, será querido. Só que, quando deixamos de ser quem somos, nunca estamos inteiros nas relações. Caímos numa necessidade de aceitação que aprisiona”, me diz Sandra.

Devemos mudar nosso padrão
de crença e saber que ser quem
somos é seguro, e é o único caminho
para viver de forma plena e feliz

 

Libertando-se de expectativas
Mas como é possível se libertar das opiniões e iluminar o poder interior que temos para ser quem somos, independentemente do que vão pensar?  O livro A Coragem de Não Agradar (Sextante), escrito pelos japoneses Ichiro Kishimi e Fumitake Koga, me trouxe reflexões valiosas sobre esse desejo de corresponder às expectativas.

Fui conversar com Ichiro, um dos autores, e ele me diz que essa busca por reconhecimento, em parte, vem da influência de uma educação baseada em recompensas e punições. Ou seja, se uma ação só tem valor quando é bem-vista por alguém, logo estaremos sempre reféns do julgamento alheio em busca de aprovação. “Nos falta coragem para sermos normais. Nós tendemos a pensar que não seremos reconhecidos pelos outros a menos que sejamos especiais. Mas, se vivermos em constante necessidade de reconhecimento, cairemos numa dependência do outro, vivendo a vida deles e jogando fora a nossa própria vida”, me disse Ichiro. Uau. É tão isso!

Se vivermos em constante necessidade
de reconhecimento, cairemos numa
dependência do outro, vivendo a vida
deles e jogando fora a nossa própria vida

Ele também diz que talvez pareça mais fácil agradar aos outros, porque, assim, transferimos nossa responsabilidade sobre como guiar nossa vida, como no caso de alguém que sempre segue o caminho traçado pelos pais. “A falta de coragem para não temer ser detestado é o nosso maior obstáculo. Mas podemos ser como somos, independentemente de como nos julgam. Também não podemos ter medo de errar”, observa Ichiro.

Entendo que precisamos aceitar a velha máxima de que não dá para agradar todo mundo. Essa é uma rota impossível, que nos tira do nosso verdadeiro caminho. Porque o que vai importar no final é como decidimos levar a nossa própria vida. O que Ichiro Kishimi e Fumitake Koga sugerem é que saibamos “separar as tarefas nossas e as dos outros”. Isso implica entender que o que o outro pensa ou espera de nós e como vai lidar com isso é uma tarefa dele, e não nossa. E que isso não nos define. Não há como resolver as tarefas de todo mundo ao mesmo tempo, só as nossas. Ufa.

A gente precisa entender, de vez,
que é impossível agradar a todos.
É uma rota que nos tira
do nosso verdadeiro caminho


Reconectando com quem somos
A questão é que, mergulhados nesse caldo de autocríticas, de julgamentos, de não nos sentirmos bons o bastante e de uma cultura que parece aceitar só o que está dentro dos padrões dualistas de certo e errado, pode ficar até difícil saber o que é nosso mesmo. Quais são nossos gostos, opiniões e verdades? Um caminho que a coach Marizete da Silva me sugere é que questionemos a nós mesmos. Uma escolha pragmática baseada em perguntas constantes:

* “Quando você se sente fragilizado, ou deprimido, ou desencaixado, como seria perguntar: ‘Quem eu estou sendo aqui?
* Se eu estivesse sendo eu, o que eu escolheria? Onde estaria e com quem?’.

“As perguntas empoderam, abrem espaço para a consciência e criam possibilidades”, diz. Também podemos abrir um caderno e nele listar o que gostamos ou não e quais valores estão ligados a nós. Parecem perguntas simples, mas trazem um contato com a gente que muitas vezes estava esquecido.

Seguir rumo a quem você é de verdade é fazer essa escolha de não agradar o tempo todo. E estar bem com isso. É aceitar que os outros lidem com suas tarefas sobre o que esperavam de você. É entender que, apesar das críticas, a sensação de fazer e de ser o que lhe parece certo é muito mais saborosa. Nem todo mundo precisa entender, e tudo bem.

“Quanto mais presentes e conscientes de que nossas escolhas e pontos de vista criam a nossa realidade, mais podemos escolher ser nós mesmos, independentemente dos julgamentos. Tudo é na verdade energia — até o julgamento —, se movendo e criando o ponto de vista da separação, de que estamos errados quando não somos parecidos ou seguimos os padrões da dita normalidade”, me diz Marizete. “O julgamento é só uma mentira que você comprou como verdade absoluta para deixar de ser quem você é.”

Através dessa autoinvestigação do que gostamos, do rumo que queremos seguir, do que é nosso versus o que é do mundo, podemos nos surpreender ao largar uma bagagem pesada e começar a viver com a leveza do nosso espírito em pequenas ou grandes atitudes. É muitas vezes trocar o carro pela bicicleta, é questionar ideias de sucesso e trabalho (imagine largar uma posição importante que nada tem a ver com você, mas que para os outros parece o máximo?), é simplesmente ir à praia de biquíni apesar das celulites ou decidir não pintar mais o cabelo. E entender que as críticas que chegarão terão mais a ver com a história que cada um leva consigo. Quando fazemos uma escolha diferente, jogamos um holofote sobre o outro, e isso pode ser incômodo, porque o faz ver que é possível viver de outra forma.

Deixando pra trás o medo
do julgamento, podemos
começar a viver com a leveza
do nosso espírito, seja nas
pequenas ou grandes atitudes da vida

O mais bonito é que, quanto mais assumimos quem somos, menos percebemos os julgamentos do outro. “Quando a pessoa para de se criticar e assume quem ela é, a opinião de fora deixa de impactar. Se não tem mais vítima, não tem mais algoz. E a gente deixa até de atrair pessoas que nos julgam tanto”, explica Sandra.

Começo a refletir sobre como a vida seria sem graça se pessoas incríveis que admiramos pela forma como se colocam no mundo tivessem deixado de expressar quem elas são pelo medo do julgamento. Quantos jeitos novos de ver a vida seriam desperdiçados? Um dos meus pintores preferidos, o catalão Salvador Dalí, conhecido pela sua arte surrealista  — e também pelo seu bigode peculiar e suas expressões engraçadas — tem uma frase que diz: “Todas as manhãs, quando acordo, experimento um prazer supremo: o de ser Salvador Dalí. Então pergunto a mim mesmo, maravilhado, que coisa prodigiosa esse tal de Salvador Dalí vai fazer hoje”.

Eu não sou Salvador Dalí, nem você. Mas, todos os dias, podemos experimentar esse prazer supremo de ser quem somos. Qual coisa prodigiosa você vai fazer hoje?

Gestação e sagrado feminino

Gestar, de algum modo, é poder se conectar com a natureza mais profunda, sagrada e poderosa do nosso feminino, que experimenta em si o poder micro-cósmico da criação.

É ver nascer um sentimento de se sentir completa em si, como um sistema que gera e nutre a vida assim como faz a mãe natureza. Acho que a gravidez é o auge do poder criativo do nosso sistema enquanto mulheres.

É ter um útero capaz de repetir o que acontece há milhares de anos na Terra, mas nunca do mesmo jeito; cada expressão de consciência que chega é uma vida nova. Um novo jeito de olhar, de sorrir, de enxergar as belezas da Terra. Talvez por isso seja tão encantador ver um bebê falar suas palavras pela primeira vez, ou começar a engatinhar. É algo que acontece o tempo todo no mundo, mas mesmo assim, nos enche de encantamento justamente porque ainda assim é único.

Sinto que gestar é se aproximar da natureza e acolher o ciclo de nascimento-morte-renascimento; quem eu era já não sou mais. A mãe mergulha em si e, quando volta à superfície, já é outra.  Por isso vejo na maternidade uma chance de acelerar esse mergulho profundo dentro da gente, tão necessário pra reconhecer a nossa própria potência, nossa própria luz. Nosso tão falado sagrado feminino.

Gerar um filho também é se entregar e se render, no sentido mais ativo que essas palavras puderem ter. É uma entrega corajosa, uma fé no invisível, algo que nos guia sem garantias. A vida não tem garantias. Ao mesmo tempo, ela nos sustenta em sua capacidade de manter tudo funcionando — mas a gente precisa confiar.

Acho que gestar também é entender e respeitar seus tempos de fazer brotar o novo no mundo. Não é na hora que a gente quer. É na hora que os frutos estão prontos para serem colhidos.

Aqui, somos novas sementes, dentro e fora da gente.

Propósito: sobre reconhecer nossos dons e talentos

Mais do que um trabalho que você ame, encontrar seu propósito é manifestar seus dons para vivermos com mais amor. E todo mundo tem talentos. A busca é interna, a fim de descobrir o que realmente alegra a nossa alma

“Mãe, o que é que a gente veio fazer aqui?”, era uma pergunta que fazia, de tempos em tempos, a garotinha que eu era. Mas o que aquela pessoa de pouca idade queria saber nada tinha a ver com os lugares a que meus pais me levavam. Era o que fez virmos parar no planeta Terra, na minha casa no Brasil em vez de uma casa no Japão (eu sempre pensava no Japão). Hoje sinto que esta pergunta, “o que é que eu vim fazer?”, tem sido despertada em cada vez mais gente, mesmo quando o vestibular já ficou a anos-luz de distância, quando temos carreiras consolidadas, empregos formais, e até mesmo uma vida confortável e feliz. “O que alegra profundamente o meu ser?” “Como sentir uma satisfação verdadeira e plena?” “Qual é o meu propósito?”

“Se não estamos seguindo o programa da nossa alma, não importa o tamanho do sucesso que conquistamos no mundo, continuamos carregando uma angústia. E aí nos sentimos desencaixados”, escreveu o psicólogo e mestre espiritual Sri Prem Baba no seu livro Propósito (Sextante). Senti que Prem Baba poderia me trazer mais reflexões, e levei minhas perguntas a ele. Com voz calma e certo bom humor, ele me diz que esse sentimento de que há algo fora do lugar é um primeiro sinal para quem começa a buscar respostas mais profundas.

“Perdemos a nossa conexão com a nossa identidade, com a razão de estarmos aqui. Tem gente que nem se faz essas perguntas. E aparentemente está tudo certo… Mas, de repente, você começa a sentir o cheiro desse desconforto. E aí aparece um filme, ou você lê um livro, ou mesmo tem uma conversa com um amigo… E as inquietações aumentam”, ele diz. É o momento em que se anuncia uma nova fase do nosso processo de evolução da consciência: começamos a nos perguntar sobre um significado maior da nossa vida. Por que acordamos todos os dias? O que estamos fazendo com nosso tempo? Quais são os talentos que recebemos?

Passo a compreender que a busca por um propósito diz muito mais do que a busca por um empego que traga satisfação. A questão é maior. Trata-se de uma jornada profunda de autoconhecimento, para que a gente possa se despir de camadas que foram colocadas sobre nós ao longo da nossa caminhada, que nos distanciam do nosso eu maior. Mais do que “descobrir”, é uma busca sobre “se lembrar” da nossa verdadeira essência.

 

“Essa busca por propósito
faz parte do 
nosso processo
de evolução da consciência:
começamos a nos perguntar
sobreum significado
maior da nossa vida”

 

Uma jornada sobre nós
Prem Baba me diz que nosso propósito está relacionado ao programa da nossa alma; ele está ligado aos nossos dons e talentos, que então se colocam a serviço do propósito maior. E qual é esse propósito maior? “É colocar o amor em movimento. É permitir que esse amor chegue a alguém através daquilo que fazemos de melhor. Esse amor passa através dos seus dons e chega no outro. E o seu fazer no mundo ou o seu trabalho acaba se tornando um servir. É exercer um amor maduro, altruísta, é querer ver o outro bem. Não só as pessoas, mas os animais, a natureza. Diria que é o amor pela Terra e por todos os filhos dela.”

Cada vez mais vou entendendo que restringir propósito a apenas se dar bem em uma profissão é algo limitado. “O propósito passa pela autorrealização, mas só a autorrealização não é manifestar seu propósito”, me diz a psicóloga e terapeuta do despertar Maju Barbosa. “A busca por propósito é um dos movimentos ao longo do autoconhecimento. Despertar é começar a viver a nossa frequência original, da qual nos distanciamos desde o nascimento. À medida que cada um caminha em direção à sua frequência, caminha também em direção ao todo, ao querer bem não só para si mas também para os outros.”

“O propósito passa pela
autorrealização,
mas só a autorrealização
não é manifestar
seu propósito”

 

O que eu gosto muito nessa história é que todos nós, sem exceção, chegamos por aqui cheios de habilidades e talentos a serem compartilhados com mais gente. Não tem quem não tenha os seus. Aquele amigo que canta muito bem, a prima habilidosa na organização das festas, a tia cuja comida transborda amor, o parceiro que é quase um detetive capaz de analisar situações complexas… E por aí vai. Não há talento maior ou menor. Mas às vezes encontramos dificuldade em enxergar e reconhecer nossos dons; outras vezes não acreditamos que essas habilidades poderão nos levar muito longe em um mundo que parece exigir tantas garantias e rotas seguras.

Quando a gente se vê meio perdido, sem conseguir enxergar aquilo que nos torna especiais, perguntar aos amigos queridos sobre nossas qualidades pode ser uma boa forma de encontrar pistas. Aqueles que nos cercam geralmente sabem o que trazemos de único e ainda não fomos capazes de olhar. E aprender a honrar o que temos de bom é um passo essencial para colocar no mundo os talentos que são só nossos. Você já notou que tem algo que faz com imensa facilidade, e por isso mesmo até acha aquilo sem importância? Esta é uma das características dos talentos: sempre podem ser aprimorados, mas também são feitos de forma natural. E precisamos dar mais valor a isso.

Também há muita gente que já reconhece e domina seus talentos, mas isso ainda não significa que está vivendo sua missão. “Um artista que trabalha nas artes cênicas, por exemplo. Ele já conhece suas habilidades, já atua… Mas, se usa isso de forma egoísta, ainda não está alinhado ao propósito”, explica Prem Baba. Ele conta que viver um propósito nem sempre requer mudar de carreira e largar tudo para recomeçar bem longe de casa. É na verdade uma mudança interna, um salto de consciência. É compreender essa dimensão que sabe que tudo está conectado. “E aí a forma como a pessoa trabalha se torna diferente. Então ela continua até na mesma empresa, na mesma função, mas agora sabe que seu trabalho pode fazer a diferença.”

“Aprender a honrar o que temos
de bom é um passo essencial
para colocar no mundo
os talentos que são só nossos”

 

Medo da felicidade
Muitos de nós podemos ouvir um chamado para seguir aquilo que nossa alma aponta como caminho, mas nem sempre teremos a coragem necessária para esse mergulho, mesmo vislumbrando os tesouros escondidos nesse mar em nós. “São muitos medos que nos habitam. É importante compreender que, quando nos distanciamos da nossa verdadeira identidade, nos distanciamos para agradar o outro, para sermos aceitos, queridos. Construímos um personagem, uma vida sem conexão com essa verdadeira identidade. Há um medo profundo em perder a zona de conforto, por pior que ela seja”, diz Prem Baba.

Também há o medo da própria grandeza e do próprio sucesso, do prazer, da felicidade. “Porque o prazer é luz. E a luz dissolve nossa escuridão. Mas estamos identificados com essa escuridão e aí temos medo de sermos dissolvidos. O medo do prazer é maior que o medo da dor.” Até ser melhor que os pais também pode ser o medo inconsciente de muita gente. O receio de ser melhor do que a família e, com isso, perder a conexão com eles, atrapalha a seguir os próprios caminhos.

“Há dentro de nós
o medo da própria grandeza
e do próprio sucesso.
Porque prazer é luz.
E luz dissolve a escuridão
na qual estamos.
Temos medo de
sermos dissolvidos”

 

É o “como”, e não o “o quê”
Dentro do propósito não existem atividades mais nobres ou melhores. Nosso ego é quem cria grandes expectativas e quer sempre algo que pareça grandioso, mas não é assim que a nossa essência verdadeira se reconhece. A pergunta deixa de ser “o que eu vim fazer”, e passa a ser “como eu estou fazendo”. Em qualquer função, cada um pode gerar mudanças incríveis em si e no mundo através da forma como faz aquilo. E não precisamos achar que viemos para ser apenas uma coisa só a vida inteira. “Propósito tem a ver com ser quem você é. E isso você manifesta em tudo, em qualquer situação, área, profissão. É uma forma de estar no mundo”, diz Maju.

A americana Ashley Richmond passa boa parte do tempo de trabalho limpando cocô de animais. Ela cuida de girafas, cangurus e outros bichos no zoológico de Detroit, trabalhando para que vivam em um espaço confortável e interessante. Seu dom de se conectar aos animais e entender suas necessidades faz com que ela sinta um enorme sentido em estar nessa posição. “Minha meta de todo dia é garantir que estejam gostando do ambiente — e boa parte disso depende de um espaço limpo”, ela diz. A história de Ashley é contada por Emily Esfahani Smith em seu livro O Poder do Sentido (Objetiva). Nele, Emily fala sobre como o propósito é um dos pilares importantes para uma vida com sentido. “Propósito soa grandioso, como acabar com a fome no mundo ou como extinguir armas nucleares. Mas não precisa ser. Também podemos ver um propósito em ser um bom pai para os filhos, criar um ambiente mais alegre no escritório ou tornar mais prazerosa a vida de uma girafa”, ela diz.

Nessa jornada, cada um vai descobrir, em si, o que é que faz o coração vibrar. “Algo é verdadeiro quando faz eco ao que existe no íntimo do nosso Ser e o expressa, isto é, está alinhado ao nosso propósito interior”, escreve o guru espiritual Eckhart Tolle em Um Novo Mundo — O Despertar de uma Nova Consciência (Sextante).

“Não há atividades mais
nobres ou melhores.
Nosso ego é quem cria grandes
expectativas e quer
algo que pareça grandioso.
Nossa essência é simples”


Viva o propósito no agora
Eckhart, conhecido por falar sobre o quanto nos distanciamos de nós mesmos ao deixar que a mente nos jogue para o futuro ou o passado, diz que estar no momento presente também é caminho para vivermos nosso propósito interior. É no estado de presença que tudo muda. “Não importa qual atividade você esteja executando, você a desenvolverá extraordinariamente bem porque o fazer em si passa a ser o ponto focal da sua atenção. Sua ação se torna, então, um canal pelo qual a consciência entra no mundo.” Eckhart quer mostrar que, mesmo se não estivermos vivendo o nosso propósito externo agora, o que o futuro nos reserva é somente fruto do nosso estado de consciência desse instante.

A nossa mente ansiosa e preocupada com o que viemos fazer e se vai dar certo precisa dar um salto para regressar ao único momento que temos: o presente, onde a vida acontece. “Ao nos alinharmos com o todo, nos tornamos uma parte consciente da sua interconexão e do seu propósito: o surgimento da consciência no mundo. Aí, incidentes favoráveis, encontros casuais, coincidências e acontecimentos sincrônicos ocorrem com muito mais frequência”, diz.

Percebo que regressar ao nosso eu maior é uma jornada profunda e desafiadora. Requer momentos de investigação pessoal, coragem para olhar para nossos medos, valorização daquilo que somos… e muito mais. Porque não tem receita pronta. Entendo que nossa forma de estar no mundo é que pode ser transformadora. No fim, propósito não deve ser uma linha de chegada, mas a própria travessia da nossa vida…

Gravidez e nossa intuição

A gestação pode ser um canal profundo para a mulher despertar seus sentidos e fazer escolhas que mais têm a ver com seu coração

Gestar tem sido a experiência mais transformadora que eu poderia vivenciar e me emociono por essa jornada que me encheu de tanta luz, de tanto conhecimento profundo sobre mim, sobre a natureza do feminino, do nosso corpo que é sagrado, que é força.

De uma alma que se une a outra, que compartilha em uníssono as mesmas sensações e pensamentos, de uma alma que se revela, a minha e a do meu bebê.

Gestar é abrir nosso canais também. E sinto que isso acontece mesmo antes do bebê entrar na nossa barriga. Ouvir a nossa intuição faz parte desse profundo despertar, e sinto que ter escutado essa voz interior me fez seguir por caminhos mais sábios e mais certos. São coincidências até difíceis de explicar.

Uma delas aconteceu há exatamente um ano. Ninguém ainda falava sobre febre amarela, e uma voz soprava ao meu ouvido me dizendo para tomar a vacina. Sei que aquilo literalmente não era meu; apenas me vinha a ideia.  Eu já sabia que, grávida, algumas vacinas eram proibidas, e essa era uma delas.

No posto de saúde, inventei uma viagem pra zona de risco para justificar a vacina, e consegui tomar. Mas aquele tipo de vacina pedia que eu esperasse três meses para engravidar… Eu não queria esperar tanto, mas sentia que precisava da vacina e pacientemente aguardei pelos três meses para tentar engravidar. E depois engravidei logo no primeiro mês.

Com pouco mais de um mês de gestação, o Horto Florestal, parque pertinho de casa, foi o primeiro a ser interditado por causa da febre amarela, e aí começou todo o caos em torno da doença. Os postos de saúde ficaram lotados e muita gente preocupada. E eu só agradecia por ter escutado essa voz, por ter sido guiada por algo que me dizia o que fazer.

E tem sido assim em muitas outras decisões: sobre a escolha da minha equipe médica, sobre como preparar meu corpo, sobre os lugares que eu vou ou deixo de ir, o que eu aceito ou recuso fazer…

Percebi que a intuição nem sempre te leva para os caminhos mais confortáveis, mais fáceis, mais docinhos. Mas ela te leva praquilo que você precisa saber, reconhecer, olhar. Ela te convida a se conectar mais forte com seu coração.

Sem floreios, acho que a gravidez pode ser, para quem estiver muito presente e muito sensível, um grande portal pra esse sagrado e mágico que tem dentro da gente.
É o mistério mais incrível que a gente vai poder contemplar.

Obrigada, meu filhote, por ser esse pequeno portal que eu ansiava adentrar.

 

Um respiro para viver com sentido

Em algum momento dessa jornada por aqui, parece que uma ficha cai dentro da gente. Cada um em seu próprio tempo. Alguma voz que pede para que a vida seja revista, revisada. Olhada de um novo jeito, onde os padrões dos quais estivemos tão acostumados parecem já não caber mais dentro da gente. Questionamos o que fazemos, como fazemos, as nossas companhias, as nossas relações.

É algo da nossa essência que precisa sair, que precisa se encontrar. Para ser e ressignificar essa passagem na terra. “Será que estou vivendo da forma como eu realmente gostaria?”, “Será que poderia fazer isso de um jeito diferente?”, “Quais são as possibilidades desse mundo?”. “Por que trabalho com isso, ou, como meu trabalho pode me trazer mais satisfação e pode fazer algo pelo mundo?”. “Será que a amizade é mesmo isso?”, “Posso me ver de um jeito diferente?”… Talvez as perguntas sejam infinitas. E,no começo, a gente nem saiba por onde começar a respondê-las.

Por um tempo, alguns anos atrás, eu estive nessa profunda crise de sentido. Eu passei a questionar tudo. “Pra que fazemos isso? Por quê?”, “Pra que estou aqui?”. “Pra que serve viver uma vida trabalhando?”, “Será que não é muito pequeno estar nessa existência do jeito que temos estado?”. “Será que tudo se resume a uma rotina que inclui trabalho e encontrar os amigos aos finais de semana, comprar umas coisinhas, ver um filme no cinema…?”.

Eu achava que tinha tanta coisa errada na Terra; que a gente não fazia nada de útil para mudar essa realidade. Que o mundo parecia cheio de pessoas adormecidas, anestesiadas para as questões internas — e também externas. Tanta gente vivendo sem refletir sobre suas escolhas em nenhum aspecto. Consumismo. Um mundo do ter, e não do ser.

Comecei a achar que a vida estava sendo experimentada de um jeito muito pequeno. Muito fora de suas potencialidades. O que tem a mais? Deve ter um sentido a mais. Deve ter um significado a mais. Será que a gente não pode fazer diferente? Será que a gente não pode rever a forma como levamos nossos dias e a forma como nos tratamos até agora? Será que mesmo sem poder solucionar a fome na África, será que não posso diminuir as desigualdades em pequenas atitudes que podem ser tomadas já? Será que o caminho é mesmo trabalhar e trabalhar só porque é assim que as coisas são? Qual é o sentido, qual é o sentido…?

Acho que ainda não tenho essa resposta pronta. Qual é o sentido. O sentido é mesmo particular; é você quem dá. A vida é isso: não existe um quadro negro no céu dizendo pra que que isso tudo serve. E talvez esse seja o sentido final: criar sentido pra tudo isso. Eu acredito que o mundo precisa ser reformulado; tudo precisa ser revisto. E tenho sentido cada vez mais que esse momento chegou, que uma nova era está despertando cada vez mais gente para viver alinhada com um propósito muito maior. Para encontrar sentidos mais profundos. Mais verdadeiros. Para sentir que aquilo sim, faz o coração estar onde deveria estar.

Quanto mais descobrirmos sobre quem nós realmente somos, mais transformadora será a nossa relação, com o outro e com o mundo. Podemos perceber a nossa intrínseca conexão com a natureza, que rege tudo, todos os nossos ciclos, mesmo quando estamos iludidos achando que isso não acontece na vida do asfalto e dos prédios na cidade grande.  Aí, cuidar desse mundo, da natureza, dos animais, deixa de ser só uma questão de sustentabilidade; passa a ser uma forma natural de amor, de cuidado, porque a criação é unica e una: não há fora e nem estamos à parte. É tudo uma coisa só. Quando esse senso desperta dentro da gente, nossa, é lindo.

Talvez cada pessoa seja um universo inteiro. Muitos universos dentro de um só. Tanto a descobrir, tanto a mergulhar. E, aos poucos, tudo vai fazendo cada vez mais sentido… E o sentimento de desencaixe vai dando lugar a uma paz serena, que sabe que o caminho é mesmo olhar para dentro. dentro e fora.

rawpixel-com-604749-unsplash