Gestação e sagrado feminino

Gestar, de algum modo, é poder se conectar com a natureza mais profunda, sagrada e poderosa do nosso feminino, que experimenta em si o poder micro-cósmico da criação.

É ver nascer um sentimento de se sentir completa em si, como um sistema que gera e nutre a vida assim como faz a mãe natureza. Acho que a gravidez é o auge do poder criativo do nosso sistema enquanto mulheres.

É ter um útero capaz de repetir o que acontece há milhares de anos na Terra, mas nunca do mesmo jeito; cada expressão de consciência que chega é uma vida nova. Um novo jeito de olhar, de sorrir, de enxergar as belezas da Terra. Talvez por isso seja tão encantador ver um bebê falar suas palavras pela primeira vez, ou começar a engatinhar. É algo que acontece o tempo todo no mundo, mas mesmo assim, nos enche de encantamento justamente porque ainda assim é único.

Sinto que gestar é se aproximar da natureza e acolher o ciclo de nascimento-morte-renascimento; quem eu era já não sou mais. A mãe mergulha em si e, quando volta à superfície, já é outra.  Por isso vejo na maternidade uma chance de acelerar esse mergulho profundo dentro da gente, tão necessário pra reconhecer a nossa própria potência, nossa própria luz. Nosso tão falado sagrado feminino.

Gerar um filho também é se entregar e se render, no sentido mais ativo que essas palavras puderem ter. É uma entrega corajosa, uma fé no invisível, algo que nos guia sem garantias. A vida não tem garantias. Ao mesmo tempo, ela nos sustenta em sua capacidade de manter tudo funcionando — mas a gente precisa confiar.

Acho que gestar também é entender e respeitar seus tempos de fazer brotar o novo no mundo. Não é na hora que a gente quer. É na hora que os frutos estão prontos para serem colhidos.

Aqui, somos novas sementes, dentro e fora da gente.

Um respiro para viver com sentido

Em algum momento dessa jornada por aqui, parece que uma ficha cai dentro da gente. Cada um em seu próprio tempo. Alguma voz que pede para que a vida seja revista, revisada. Olhada de um novo jeito, onde os padrões dos quais estivemos tão acostumados parecem já não caber mais dentro da gente. Questionamos o que fazemos, como fazemos, as nossas companhias, as nossas relações.

É algo da nossa essência que precisa sair, que precisa se encontrar. Para ser e ressignificar essa passagem na terra. “Será que estou vivendo da forma como eu realmente gostaria?”, “Será que poderia fazer isso de um jeito diferente?”, “Quais são as possibilidades desse mundo?”. “Por que trabalho com isso, ou, como meu trabalho pode me trazer mais satisfação e pode fazer algo pelo mundo?”. “Será que a amizade é mesmo isso?”, “Posso me ver de um jeito diferente?”… Talvez as perguntas sejam infinitas. E,no começo, a gente nem saiba por onde começar a respondê-las.

Por um tempo, alguns anos atrás, eu estive nessa profunda crise de sentido. Eu passei a questionar tudo. “Pra que fazemos isso? Por quê?”, “Pra que estou aqui?”. “Pra que serve viver uma vida trabalhando?”, “Será que não é muito pequeno estar nessa existência do jeito que temos estado?”. “Será que tudo se resume a uma rotina que inclui trabalho e encontrar os amigos aos finais de semana, comprar umas coisinhas, ver um filme no cinema…?”.

Eu achava que tinha tanta coisa errada na Terra; que a gente não fazia nada de útil para mudar essa realidade. Que o mundo parecia cheio de pessoas adormecidas, anestesiadas para as questões internas — e também externas. Tanta gente vivendo sem refletir sobre suas escolhas em nenhum aspecto. Consumismo. Um mundo do ter, e não do ser.

Comecei a achar que a vida estava sendo experimentada de um jeito muito pequeno. Muito fora de suas potencialidades. O que tem a mais? Deve ter um sentido a mais. Deve ter um significado a mais. Será que a gente não pode fazer diferente? Será que a gente não pode rever a forma como levamos nossos dias e a forma como nos tratamos até agora? Será que mesmo sem poder solucionar a fome na África, será que não posso diminuir as desigualdades em pequenas atitudes que podem ser tomadas já? Será que o caminho é mesmo trabalhar e trabalhar só porque é assim que as coisas são? Qual é o sentido, qual é o sentido…?

Acho que ainda não tenho essa resposta pronta. Qual é o sentido. O sentido é mesmo particular; é você quem dá. A vida é isso: não existe um quadro negro no céu dizendo pra que que isso tudo serve. E talvez esse seja o sentido final: criar sentido pra tudo isso. Eu acredito que o mundo precisa ser reformulado; tudo precisa ser revisto. E tenho sentido cada vez mais que esse momento chegou, que uma nova era está despertando cada vez mais gente para viver alinhada com um propósito muito maior. Para encontrar sentidos mais profundos. Mais verdadeiros. Para sentir que aquilo sim, faz o coração estar onde deveria estar.

Quanto mais descobrirmos sobre quem nós realmente somos, mais transformadora será a nossa relação, com o outro e com o mundo. Podemos perceber a nossa intrínseca conexão com a natureza, que rege tudo, todos os nossos ciclos, mesmo quando estamos iludidos achando que isso não acontece na vida do asfalto e dos prédios na cidade grande.  Aí, cuidar desse mundo, da natureza, dos animais, deixa de ser só uma questão de sustentabilidade; passa a ser uma forma natural de amor, de cuidado, porque a criação é unica e una: não há fora e nem estamos à parte. É tudo uma coisa só. Quando esse senso desperta dentro da gente, nossa, é lindo.

Talvez cada pessoa seja um universo inteiro. Muitos universos dentro de um só. Tanto a descobrir, tanto a mergulhar. E, aos poucos, tudo vai fazendo cada vez mais sentido… E o sentimento de desencaixe vai dando lugar a uma paz serena, que sabe que o caminho é mesmo olhar para dentro. dentro e fora.

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